sábado, 8 de novembro de 2008

LOST IN TRANSLATION

Realização e Argumento: Sofia Coppola.

Elenco: Bill Murray, Scarlett Johansson, Giovanni Ribisi, Anna Faris.

Nacionalidade: EUA/Japão, 2003.


Pegando no título original, Lost in Translation faz-nos realmente sentir perdidos na tradução. Não a tradução entre o inglês e o japonês, um jogo que nos dá alguns dos momentos mais divertidos; mas a tradução entre o mundo e cada um de nós como parte desse todo. O sentimento de inadequação e desgarramento não está dependente da acção se desenrolar em Tóquio, mas do facto de se terem esquecido de dar a Charlotte e a Bob um dicionário que os ajude a compreender esse idioma estranho com que o mundo e a sociedade lhes falam. A não comunicação de ambos com os seus respetivos parceiros evidencia isso mesmo: o marido fotógrafo de Charlotte basicamente esquece-se dela durante todo o dia, e Bob encontra-se bastante mais longe da sua companheira que os quilómetros que fisicamente os separam.


Mas, no fim, fica a vontade de não encontrar sequer esse papel pré-definido, a vontade de inventar o seu próprio caminho, a sua própria linguagem que, num segredo sussurrado, deixa o espectador a procurar no seu íntimo o desfecho da história, a explicação.


Custa classificar este filme como comédia. Sim, sorrimos muitas vezes, e uma gargalhada ou outra será inevitável, mas a tristeza está tão impregnada nos silêncios e nos olhares que é difícil não repararmos nela. Um pouco como o contraste de cor entre a Tóquio de noite, com os seus garridos néons, os seus ensurdecedores karaokes, e animação descontrolada; e a Tóquio de dia, de cores suaves de pastel esbatido, de uma cidade que se cala para trabalhar e se fecha num quarto de hotel.


O ritmo do filme é como uma respiração, acompanhando a exasperação e o cansaço dos personagens, a sua euforia e a sua descoberta, em duas interpretações magistrais, de contenção expressiva, por parte de Scarlett Johansson, uma das actrizes do ano, e a comicidade trágica de Bill Murray, num dos seus melhores registos de sempre.


Na identificação de um momento, o elemento que os une (a nacionalidade, o idioma comum, a estranheza do contexto) serve de ajuda a essa busca de um sentido que, naquela semana, parece resumir a preocupação de toda uma vida. E assistimos à construção, em pequenos detalhes, de um amor que é identificação, compreensão, aceitação. Um sentimento que não precisa de tradução. E como completa a voz de Brian Ferry, no momento mais emotivo do filme: “More than this, there is nothing…”.

Extraído de: http://cinerama.blogs.sapo.pt/71567.html

Do filme, que vi ontem retive a frase:
"The more you know who you are and what you want, the less things upset you."

sábado, 1 de novembro de 2008

EXISTEM PESSOAS EXCEPCIONAIS


À minha frente estava sentada uma mulher jovem, deveria ter entre vinte e cinco e trinta anos. Era bonita e vestia-se com gosto. Apresentou-se-me como sendo a encarregada de educação do Pedro, o aluno que acabara de chegar à minha direcção de turma. O Pedro viera transferido de uma escola do continente, integrara a turma uma semana após o ano lectivo se ter iniciado. Maria, era assim que se chamava a jovem à minha frente, explicou-me que tinha pedido a guarda do meu aluno e que esta lhe tinha sido concedida. Tudo começara quando o conheceu numa instituição em que trabalhara como assistente social. A mãe do Pedro sofrera um aneurisma e encontrava-se em estado vegetal, o pai entregara o filho aos cuidados de uma instituição, apesar de dispor de recursos para cuidar do menino. Maria afeiçoou-se-lhe e quando, por motivos de colocação, deixou de trabalhar na instituição onde este se encontrava passou a convidá-lo para passarem juntos fins-de-semana e férias. O problema surgiu quando Maria foi colocada nos Açores, ficando impossibilitada de ver o Pedro com a frequência a que já estavam habituados.

- O Pedro ressentiu-se muito. Sentia a minha falta. - explicou-me a Maria - O que poderia fazer? Pedi para ficar com a guarda dele.

Foi assim que o Pedro veio parar à minha turma.

- Eu ajudei o Pedro a preencher a ficha biográfica. Ele estava com dificuldades com o nome que devia colocar onde dizia "Nome da mãe". Disse-me: "Sabes Maria, é que para mim tu és a minha mãe, mas não posso lá escrever o teu nome. Toda a gente vê que não és a mimha mãe." - contou-me a Maria.


Maria é uma encarregada de educação interessada. Preocupa-se com o comportamento, o aproveitamento, as dificuldades de aprendizagem, a integração do Pedro na escola. Conhece as dificuldades que ele tem ao nível da escrita, sabe os erros que ele comete, ajuda-o a estudar para os testes, está a par das novas amizades que faz, mantém-se ao corrente do que se passa na escola, das traquinices e dos problemas próprios da idade.


É raro o dia em que não me lembre da atitude da Maria, uma jovem solteira, bonita, com um bom emprego e que fica com um menino de 14 anos, é esta a idade actual do Pedro, à sua responsabilidade. Não posso pensar que o fez inconscientemente uma vez que trabalha todos os dias com crianças desta idade e que foram abandonadas. São pessoas como a Maria que me fazem acreditar nesta força incrível que é o Amor.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

POR INTEIRO


- A tua cara-metade foi-se embora!

Assustada olhou o espelho à espera de ver apenas metade da sua cara. A imagem que viu era a do seu rosto. Inteiro. Incrédula confirmou: uma boca, um nariz, dois olhos... uma lágrima no canto esquerdo. A metade que se fora não era a sua. Entendeu que partir gente ao meio é idéia de gente que não entende que quando se é, é-se por inteiro.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

RECOMEÇA

Recomeça...
Se puderes,
sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
nesse caminho duro
do futuro,
dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
e vendo,
acordado,
o logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga

Este poema foi-me enviado por uma amiga.
É uma pessoa especial:
diz que não gosta de poesia, mas envia-me um poema,
consegue ouvir as palavras que não digo,
sabe como fazer sentir a sua presença em todos os momentos.
Para ela vai o meu muito obrigada.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

NA TERRA DOS SONHOS

Por um instante brinco com o tempo e seguro os ponteiros do relógio...
Estou no meu lugar de sempre. Onde descobri o frio da água e o calor do sol, o sabor a sal e o cheiro a mar. Onde aprendi que o vento acaricia e que as ondas também servem de berço. Dou por mim a conjugar verbos de outros tempos e que julgava perdidos. As palavras ganham forma e o mar susssurra-as docemente.

sábado, 13 de setembro de 2008

ETERNAMENTE



Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos; acredita na eternidade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.
E a tua voz ouço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias, num mar de Setembro, com cheiro a algas e a iodo. E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.
in "Não te deixarei morrer, David Crocket" de Miguel Sousa Tavares
Por falta de disponibilidade tenho andado afastada deste e dos vossos espaços. Quando tudo voltar aos seus devidos lugares retomarei as minhas visitas de que tanta falta sinto.

sábado, 6 de setembro de 2008

SEM NEXO



Palavras
naufragadas no cérebro
silêncio branco
sem ondas
liso
Palavras
presas nos dedos
folha limpa
sem uso
lisa