quinta-feira, 16 de outubro de 2008

POR INTEIRO


- A tua cara-metade foi-se embora!

Assustada olhou o espelho à espera de ver apenas metade da sua cara. A imagem que viu era a do seu rosto. Inteiro. Incrédula confirmou: uma boca, um nariz, dois olhos... uma lágrima no canto esquerdo. A metade que se fora não era a sua. Entendeu que partir gente ao meio é idéia de gente que não entende que quando se é, é-se por inteiro.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

RECOMEÇA

Recomeça...
Se puderes,
sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
nesse caminho duro
do futuro,
dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
e vendo,
acordado,
o logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga

Este poema foi-me enviado por uma amiga.
É uma pessoa especial:
diz que não gosta de poesia, mas envia-me um poema,
consegue ouvir as palavras que não digo,
sabe como fazer sentir a sua presença em todos os momentos.
Para ela vai o meu muito obrigada.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

NA TERRA DOS SONHOS

Por um instante brinco com o tempo e seguro os ponteiros do relógio...
Estou no meu lugar de sempre. Onde descobri o frio da água e o calor do sol, o sabor a sal e o cheiro a mar. Onde aprendi que o vento acaricia e que as ondas também servem de berço. Dou por mim a conjugar verbos de outros tempos e que julgava perdidos. As palavras ganham forma e o mar susssurra-as docemente.

sábado, 13 de setembro de 2008

ETERNAMENTE



Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos; acredita na eternidade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.
E a tua voz ouço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias, num mar de Setembro, com cheiro a algas e a iodo. E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.
in "Não te deixarei morrer, David Crocket" de Miguel Sousa Tavares
Por falta de disponibilidade tenho andado afastada deste e dos vossos espaços. Quando tudo voltar aos seus devidos lugares retomarei as minhas visitas de que tanta falta sinto.

sábado, 6 de setembro de 2008

SEM NEXO



Palavras
naufragadas no cérebro
silêncio branco
sem ondas
liso
Palavras
presas nos dedos
folha limpa
sem uso
lisa

domingo, 31 de agosto de 2008

PASIÓN

No me olvides
yo me muero
Amor
mi vida es sufrimiento
Yo
te quiero en mi camino
Por vos
cambiaba mi destino

Ay,
abrázame esta noche
aunque no tengas ganas
prefiero que me mientas
tristes breves nuestras vidas
acércate a mí
abrázame a ti por Dios
entrégate a mis brazos.

Tengo
un corazón penando
Yo sé
que vos lo está escuchando
Con
mil lágrimas te quiero
Pasión
sos mi amor sincero

Ay,
abrázame esta noche
aunque no tengas ganas
prefiero que me mientas
tristes breves nuestras vidas
acércate a mí
abrázame a ti por Dios
entrégate a mis brazos

Ontem à noite, em Ponta Delgada, Rodrigo Leão ao vivo

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

A MINHA PRAIA

Praia do Pópulo

É dos dias que passei nesta praia que vou ter mais saudades.
Dos dias como este em que a praia foi praticamente minha.
Houve dias em que aqui estive bem cedo a dar o meu mergulho ainda antes de tomar o pequeno-almoço.
Noutros dias saí daqui já estava a anoitecer.
Foi companheira de risos e brincadeiras. Foi companheira dos dias tristes...
Neste mar vi a serenidade que desejo minha.
Foi a voz deste mar que suavisou a minha dor.
Neste mar me deitei a olhar o céu e senti a paz que um e outro me transmitem.
Foi aqui que recolhi a energia do Sol que guardo para os dias de Inverno.
E quando os dias de Sol se forem, irei dar os meus passeios junto a este mar...meu eterno companheiro.