domingo, 15 de Novembro de 2009

GOSTO MUITO DE TI



Quando a vi hoje pareceu-me mais pequena. Não que alguma vez a tenha considerado alta, mesmo em criança já me apercebia da sua estatura baixa.
No momento em que cheguei estava sentada numa cadeira, bem na pontinha, com o olhar em lado algum. Ao aperceber-se da minha presença levantou os olhos para mim. Os mesmos olhos azuis, os olhos mais meigos que já vi, mas hoje até os olhos estavam diferentes... no seu olhar estava bem patente a confusão que sentia. Abracei-a e beijei-a como de costume. Não me reconheceu... Falei-lhe dos dias em que, logo de manhãzinha, me penteava os cabelos com vagar e carinho, porque sabia o quão difícil era desembaraçá-los em seco, das roupinhas que me fazia para as bonecas, do dia em que me ensinou a tricotar com paciência infinita para com as minhas mãozinhas desajeitadas, descrevi-lhe as blusas que me tricotara, modelos difíceis que conseguia desvendar olhando, através de uma lupa, horas a fio para as fotografias das revistas alemãs, onde eu encontrava os pull-over da minha preferência, falei-lhe das minhas travessuras com os meus primos... sorria enquanto me ouvia. Por fim disse-me:
- Eu sei quem és, só não sei como te chamas.
A minha tia explicava-lhe quem eu era, a filha do seu filho mais velho, a Carla. As suas palavras de nada serviam. A minha avó não conseguia reconhecer ninguém.
Nas minhas mãos as suas mãos frias, brancas quase translúcidas. Olhou-me a sorrir:
- Sei que gosto de ti.

sábado, 31 de Outubro de 2009

PÃO-POR-DEUS



Batem à porta!
Quando a abro vejo um grupo de três ou quatro crianças disfarçadas de bruxas, vampiros e outras figuras que não consigo identificar. Sorriem-me enquanto me apresentam os seus sacos à espera que lá coloque guloseimas, mas não ouço a frase que deveria acompanhar os seus gestos: "guloseimas ou travessuras". Mesmo assim respondo às suas expectativas.
O cenário repete-se ao longo da noite. 
O que é feito do nosso Pão-por-Deus?

sábado, 24 de Outubro de 2009

OS "MEUS" MENINOS




O Paulo está pela primeira vez no 7º ano. Tem um sorriso tímido, levanta o dedo a pedir licença para falar, o que faz com frequência na minha aula, é que Matemática é a sua disciplina preferida. Quando acaba a leitura de um enunciado, inicia de imediato a resolução do exercíco e enquanto espera que os colegas terminem, entretém-se inventando novas perguntas. Com os olhos a brilhar por detrás dos óculos, põe o dedo no ar e pergunta: "Ó professora, e se no problema ainda pedisse..." Para ele a aula passa rápido. Gosta de aprender e gosta de fazer coisas que a maior parte dos seus colegas classificariam de chatas: ler e inventar construções em Lego. Um dia vai ser engenheiro...
O Henrique também frequenta o 7º ano pela primeira vez. Sentou-se no primeiro dia na fila da frente, "para ver melhor o quadro". Usa óculos de lentes grossas numas armações todas "fashion", e um brinco em cada orelha, quadrados preenchidos com brilhantes de vidro. Espeta o cabelo curto com gel e é moreno, daquela cor que só os meninos de rua conseguem ter. Preferia estar a trabalhar com o pai nas obras, a "amarrar ferro", do que frequentar a escola, mas o seu sonho era ser como o Cristiano Ronaldo. Quando lhe peço para ler uma questão em voz alta, lê muito devagar, junta as letras, depois as sílabas e por fim sai a palavra. Ao terminar a leitura, volta a ler tudo para si, a ver se entende a pergunta. Depois sai-lhe a resposta de rompante. Se está correcto, o que acontece raramente, diz todo satisfeito: "Sou esperto, não sou professora?"

Em cada novo ano lectivo sinto que, na minha escola, aumenta o número de meninos como o Henrique. A minha grande interrogação é como ensinar estes meninos que os pais enviam para a escola por obrigação e que permanecem lá contra a sua vontade. São alunos que chegam ao 7º ano de escolaridade sem terem, ao menos, desenvolvido competências básicas como as de leitura e de cálculo e que não revelam gosto em aprender. Não valorizam a cultura escolar e não compreendem a sua linguagem. Ensinar estes meninos é um grande desafio, penso que o maior que hoje se me apresenta, em termos profissionais.


Durante estas semanas em que estive ausente, senti saudades deste cantinho e dos vossos, mas o tempo para escrever e para vos visitar faltou-me.  Espero que agora seja o regresso a este espaço.

terça-feira, 1 de Setembro de 2009

INICIAL

O mar azul e branco e as luzidias
Pedras - O arfado espaço
Onde o que está lavado e relava
Para o rito do espanto e do começo
Onde sou a mim mesma devolvida
Em sal espuma e concha regressada
À praia inicial da minha vida

Sophia de Mello Breyner

segunda-feira, 10 de Agosto de 2009

FÉRIAS

Desde o ano passado que me apetece imenso fazer férias fora dos Açores, sem que tal seja possível.
Neste último ano, houve muitos períodos de tempo em que me senti de mãos atadas, sem poder fazer nada, para resolver os problemas que tanto me afiligiram, restando-me apenas esperar e de preferência com paciência. Foi nestas alturas que me apeteceu deixar tudo para trás e viajar. Sempre soube que a minha queria amiga Sandra tinha razão ao afirmar que sair daqui não iria atenuar as minhas preocupações, porque as levaria comigo para onde quer que fosse. Em finais de Junho, quando já não esperava que tudo se solucionasse do modo que desejava, recebi um telefonema a informar-me que havia sido colocado um ponto final em toda a situação. Finalmente pude respirar de alívio! E achei que merecia as minhas tão desejadas férias, mas aquilo que pensamos, às vezes tem tão pouca importância. Por isso, aqui estou na minha ilha, a passar umas férias simultaneamente relaxantes e divertidas. Estão-me a saber muito bem, principalmente porque sinto uma paz que há muito não sentia. Sei que este Verão o lugar ideal para estar é onde estou.


Hoje estive aqui, na Praia de Água D'Alto:


Uma magnífica praia da costa sul da ilha de S. Miguel, onde mesmo num dia de sol de Agosto, podemos passar um dia calmo, acompanhados pelo som do mar e dos pássaros a chilrear na encosta.

quarta-feira, 5 de Agosto de 2009

SEMPRE O MAR


Sempre gostei da companhia do mar. Não importa se está azul ou cinzento, se me vem beijar silenciosamente os pés ou se me atira ruidosamente com os seus salpicos, se cheira a algas ou a iodo. Não importa... Sei que está sempre lá, como se estivesse especialmente à minha espera.

Quando acordo com um passarinho a cantar na janela e vejo o céu azul (às vezes sou a única a vê-lo assim), sei que que o meu mar está lá pronto a partilhar a minha alegria. Nestes dias, sou, junto a ele, livre como o golfinho que pula feliz nas suas ondas.

Nos dias em que as palavras esgrimem no meu cérebro, numa batalha ensurdecedora, só o mar é capaz de as calar. Não sei o porquê. Não sei se é de contemplar a sua infinitude e a sua dança constante, se é de ouvir a sua música ou sentir o seu cheiro. Caminho ao seu lado ou sento-me a olhá-lo e a ouvi-lo até que no meu cérebro as palavras sejam substituídas por silêncio. Nestes momentos nada mais existe: só eu e o mar. Depois, desaparece a urgência das decisões e a enormidade dos problemas. Se não os posso resolver de nada me vale pre-ocupar. Às vezes, simplesmente é preciso esperar, outras dar pequenos (ou grandes) passos na sua resolução. O mar não me dá respostas, dá-me calma, uma grande calma.

O meu templo é o mar.

segunda-feira, 27 de Julho de 2009

FÉRIAS À PORTA

Na passada sexta-feira, ao fim do dia, rumei até aqui:


Passeei preguiçosamente, ao sabor da vontade, como só é possível quando não existem horários a cumprir.



Saboreei o Sol e o mar.



Aqui nem um nem outro. O primeiro ficou escondido por umas nuvens e o segundo infestado por "caravelas".



Encantei-me com esta baía de águas quentes e límpidas. Fiquei fascinada pela sua beleza e pela calma que lá encontrei. Tenho a certeza que lá voltarei com mais tempo.
(Fotos tiradas pelo meu filho mais velho.)