
Começa por ser uma manhã que tarda
A espera de que se foge
Gota que cai leve no rosto
Só depois o céu fica cinzento
E desaba em estilhaços
No chão
Comemorou o seu 71º aniversário no mês passado. O seu nome não é relevante, não aparece em revistas ou jornais. Não publicou livros, não é actor nem músico, não realizou nenhuma obra que o celebrizasse... daqui a algumas gerações o seu nome terá sido esquecido. O seu nome não ficará escrito nos livros de história, mas ficará indelevelmente guardado no meu coração. Conheci-o recentemente e aproximei-me dele acerca de dois anos. Não sei muito do seu passado, apenas o que ele conta quando vem a propósito. Nasceu numa família humilde, foi para o seminário cedo, durante a guerra colonial foi capelão militar algures em África. Terminada a guerra voltou à sua terra natal, mas o bispo colocou-o numa terra distante da dos seus pais, gravemente doentes e a precisar do seu auxílio. Talvez tenha sido esta a gota de àgua que o fez deixar o sacerdócio, os verdadeiros motivos desconheço. Tirou o curso de psicologia. Casou-se e teve uma filha que nasceu com uma deficiência profunda. Durante 17 anos, ele e a esposa, deram de comer à menina, puseram-lhe e tiraram-lhe as fraldas, lavaram-na, vestiram-na e pentearam-na, levaram-na a passear, cantaram-lhe e contaram-lhe histórias, beijaram-na e abraçaram-na...era a sua menina. A sua filha faleceu e mais tarde vítima de doença, que sei ter sido prolongada, também faleceu a mãe. O tempo passou, não sei quantos anos ao certo, voltou a encontrar o amor e casou-se à cerca de doze anos. É uma pessoa que admiro, nunca o ouvi lamentar-se da sua vida ou das dificuldades por que passou, tão pouco proferir alguma palavra amarga sobre o seu passado. Está sempre disponível para quem o procura, ouve como ninguém e acima de tudo não julga as pessoas. Tem um coração grande, sempre pronto a ajudar quem ele sabe que precisa. Adora a sua "quinta" que mantém impecável com a ajuda de um jardineiro e no final do ano passado encontrou um novo "hobbie", aprendeu a pintar estatuetas que pelo Natal ofereceu à família e amigos: anjos, Meninos Jesus e Sagradas Famílias ... Guardo o anjo que me ofereceu no meu quarto, bem perto de mim. À esposa ofereceu recentemente um humorístico casal de namorados. Nunca o ouvi lamuriar-se dos seus 71 anos e tem sempre um novo projecto a ser posto em prática. Tenho a certeza que muitas vezes duvidou do seu Deus, no qual continua a acreditar, que chorou com as dificuldades que lhe surgiram, talvez tenha perdido momentaneamente a esperança, se calhar nem sempre foi feliz...hoje basta olhar para os seus olhos para saber que é. Vejo-o como um construtor...um construtor da sua vida.