terça-feira, 7 de julho de 2009

"O LEITOR"





Infelizmente não consegui ver o filme (esteve em exibição em Ponta Delgada apenas durante uma semana que por azar mau coincidiu com uma altura de muito trabalho), mas adorei ler o livro. A sua leitura foi também um regresso ao meu passado, à minha adolescência, aos dias em que me embrenhava na leitura de romances sobre a II Guerra Mundial. Tudo começou com a leitura do Diário de Anne Frank que me impressionou deveras, depois seguiram-se livros como Mila 18, Última Batalha, Exodus, Segunda Vitória, entre muitos outros. Durante algum tempo este tipo de leitura foi o meu preferido, e sem algum tipo de critério lia todos os livros que encontrava. Indignava-me com a segregação do judeus, com o seu isolamento em guetos e com as condições terríveis em que viviam, com os horrores vividos nos campos de concentração, tornava-me defensora do seu êxodo para a Palestina... Acima de tudo assustava-me a crueldade do homem e a total falta de respeito pela dignidade que um homem pode ter para com um ser seu semelhante.
Este é um livro diferente, desde logo porque a acção desenrola-se no pós-guerra (bem posterior ao pós-guerra imediato de Segunda Batalha) e mais do que um livro sobre a Guerra é um livro sobre como lidar com a culpa que ficou na geração dos que, no mínimo, consentiram, através do seu silêncio, com os horrores cometidos. Depois, porque é uma refelexão sobre as consequências das nossas acções, ou da sua ausência, quer no desenrolar da nossa vida, quer na dos que nos rodeiam. Levanta uma grande interrrogação: Como lidar com estas consequências e com a culpa que nos faz sentir?

Deixo aqui três trechos que me tocaram de um modo particular.

"Porquê? Por que razão, quando olhamos para trás, o que era bonito se torna quebradiço, revelando verdades amargas? Por que razão se tornam amargas de fel as recordações dos anos felizes de casamento, quando se descobre que o outro tinha um amante durante todo aquele tempo? Por que não era possível ter sido feliz numa situação assim? Contudo, fomos felizes! Por vezes, quando o final é doloroso, a recordação trai a felicidade. Por que é que a felicidade só é verdadeira quando o é para sempre? Por que é que só pode ter um final doloroso quando já era doloroso, ainda que não tivéssemos consciência disso, ainda que o ignorrássemos? Mas uma dor inconsciente e ignorada é uma dor?"


"Revisão! Rever o passado! Nós, os estudantes do seminário, víamo-nos como os pioneiros da revisão do passado. Queríamos abrir as janelas, deixar entrar o ar, o vento que finalmente faria redemoinhar o pó que a sociedade deixara acumular sobre os horrores do passado. Iríamos zelar para que se pudesse respirar e ver. Também nós não confiávamos a sabedoria dos juristas. Parecia-nos evidente que deria haver condenações. E também achávamos claro que só aparentemente se tratava de um julgamento de um qualquer guarda ou esbirro de um campo de concentração. Quem estaria a ser julgada naquele tribunal era a geração que se serviu dos guardas e dos esbirros, ou que não os impediu, ou que pelo menos não os marginalizou omo deveria ter feito depois de 1945. E o nosso processo de revisão e esclarecimento pretendia ser a condenação dessa geração à vergonha eterna."


" As camadas da nossa vida repousam tão perto umas das outras que no presente adivinhamos sempre o passado, que não está posto de parte e acabado, mas presente e vivido. Compreendo isto. Mas por vezes é quase suportável. Talvez tenha escrito a história para me livrar dela, mesmo que não o consiga."

em "O Leitor" de Bernard Schlink

10 comentários:

O Nosso Costume disse...

Lindo, vou já ver o filme!!Sabes que por aqui temos mais prazer a ver e ouvir do que ler!!
Obrigada por partilhares estes teus prazeres.
Avivas a minha alma que por sinal tem andado perdida!!Bem, acho que estou a sentir saudades de escrever no nosso costume!!!
Beijos

Carla disse...

não li o livro, ma vi o filme e gostei muito

desculpa só agora responder ás amáveis palavras que deixaste nos "Desalinhos" sobre o meu livro...infelizmente não sei se o livro será posto à venda nos Açores, mas caso queiras posso fazer-te chegar um exemplar pelos correios
beijo

Vento disse...

Vi o filme e aconselho pois é soberbo.

Beijo

Violeta disse...

Foi um filme que me marcou muito Talvez também seleccionasse as mesmas passagens, ou quase...
bjs

Sunrise disse...

Gostei mt do filme :) Tens de ver no clube de video. Ja deve estar disponivel. Bjs

Violeta disse...

Sunshine:
Passei para te deixar um beijinho, desejar boas férias. porém, acima de tudo desejar-te que a vida te sorria.

O Profeta disse...

Ao meu querer!
Dias noites, estações esquecidas
Inventei sonhos para sonhar
Lavei mágoas, dores perdidas

Uma árvore toca as águas da lagoa
O nevoeiro faz desenhos nas cumeeiras
Um Melro negro solta um pio ao acaso
A palavra quero-te diz-se de mil maneiras


Convido-te a ver a Cor da Claridade


Doce beijo

PedrasTuas disse...

Engraçado? Talvez a metafísica das coincidências...como diria uma amiga minha.

Ando neste momento a ler o "o Leitor". Em alemão, para não deixar a língua o musgo que outrora as pedras já ganharam... Estou a adorar. A leitura vai lenta e a tentação de comprar a versão portuguesa cresce. Já ofereci o livro em português a um amigo...que anda sem tempo para ler...
Eu não pretendo ver o filme enquanto não não ler o livro...
Uma das minhas teimosias!!!

Ando sem muito tempo para escrever, mas sempre com um tempinho para ler...

Obrigada pela sua visita. É bom receber o sol.

Felicidades Sunshine... Até breve...

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Não li o livro, mas quando tiver oportunidade, não perca o filme. Quanto mais não seja, para ver o desempenho magistral da Kate Winslet

Flores disse...

Não pude deixar de ver seu blog, adorei as passagens selecionadas...
a vida encerra em si tantas dolorosas e maravilhosas experiências!!