
Rosto que se vira incomodado, evitando que os olhos vejam o que não quer.
Passo acelerado, para que o cheiro não lhe chegue às narinas e a voz não lhe fique gravada.
Não lhe importa que seja criança em farrapos e de pés no chão a pedir pão ou talvez um abraço.
Não quer saber se é mendigo que tem por cama a pedra em algum recanto escondido.
Se é prostituta isto não é consigo, não tivesse escolhido aquela como profissão.
Ah, e se usa perfume barato e roupa sem ser de marca... cheira a gente do povo!
E de que falam? É de futebol ou de telenovelas? Não conhecem Kant ou Nietche, Pessoa ou Saramago? Que pobreza, que gente sem cultura!
Não sabem apreciar uma obra de arte? Não vão ao teatro? Querem é festa popular, com sardinha e vinho de cheiro? De certeza não são gente!!!
Quem não sente é que não é gente!
Que curso tiraram, que dinheiro têm, que poder obtiveram para lhes permitir além de julgar, desdenhar dos outros? O que foi que ganharam?
Bolas de vidro em vez de olhos, pedaços de ferro a fingirem de braços uma pedra no lugar do coração ( pedra não, que a pedra aquece ao Sol)?
Endurecem de tal modo, que nem o sofrimento de quem já fez parte das suas vidas lhes comove! É que pode vir a ser contagioso! É bom partilhar os momentos de alegria, mas as lágrimas, estas fiquem com quem as deixa cair!